Cabeça de juiz, barriga de grávida e bolsa de mulher…a gente nunca sabe o que tem dentro!


Cabeça de juiz, barriga de grávida e bolsa de  mulher, já dizia meu avô, a gente nunca sabe o que tem dentro. Por que tô dizendo isso? Ah…É que hoje conversava com uma adolescente e a observava esbravejar contra a decisão de um juiz da área cível a respeito de processo que não vem ao caso. Nossa amiguinha aqui, como já podem ter percebido, se dedica a passar no vestibular para Direito. Esforçada, assistiu algumas audiências. Está furiosa! Acha que os juízes estão decidindo muito mal e que ela irá revolucionar o mundo quando estiver formada.
Exageros a parte, quero fazer uma pergunta: alguém ainda tem dúvidas de que os juízes não são isentos quando julgam?  Não, não estou falando como algo negativo não. Acalmem-se os “briguentos” de plantão! É uma constatação, apenas. Porque haveria de ser diferente se todos somos humanos? Ah, vai dizer que você acha também que os cientistas são isentos? E os psicólogos, psiquiatras? Em que mundo você vive? Não existe neutralidade, pura e simples. Neutralidade é um conceito abstrato, que não se sustenta na prática.
Pensa comigo: nós todos temos mil vivências antes de nos tornarmos profissionais. Nossa abundância ou falta de estímulos, condições materiais, cultura, influenciam diretamente em nossas vidas e nos marcam para sempre. Para o bem e para o mal. Se sou homem, tenho um pai dominador, rígido, que vive com padrões éticos-morais estreitos, terei um tipo de impressão da vida diferente daquele que cresceu com um pai amigo, suave, amoroso. Em um julgamento, contarão essas experiências. O juiz partirá delas, mesmo sem perceber. Elas são como amarras das quais não podemos fugir. Se o juiz será tão rígido como o pai que teve, por exemplo, ou mais benevolente em contra-partida ao comportamento desse, não importa. O que quero dizer aqui é que não é apenas a letra fria da lei que tem vez na hora da decisão de um juiz. Deu para entender? A juíza que foi traída e que sente-se humilhada por causa disso, talvez já tenha sua decisão tomada ao julgar um caso de adultério: a sentença será desfavorável ao adúltero. Trata-se, a grosso modo, de adequar a decisão previamente tomada à técnica jurídica.  Eu disse a grosso modo…
A psicóloga, quando atende um paciente, tem que fazer esforço imenso para não deixar que sua bagagem de vida atrapalhe as sessões. Ela certamente estará presente. O importante é saber como a profissional lida com essa questão. Muitas se atrapalham, se sentem incomodadas com o que o paciente diz, constroem muros que dificultam os atendimentos. Outras conseguem entender tudo isso, tratando de cuidar para que sua própria vida interfira o mínimo em seu trabalho.
As cientistas das mais diversas áreas também não são neutras. Há muito caiu o mito da neutralidade da ciência. Acompanha comigo: eu sou cientista e botei na cabeça que a teoria x é interessante, que devo prová-la. Passo anos estudando, fazendo experiências até chegar – ou não – ao resultado que esperava. Muitas vezes esse resultado é “forjado”, não por má-fé, mas por incapacidade de olhar para o lado e ver que existem outras possibilidades. Funciona mais ou menos assim – corrija-me se eu estiver errada: as vezes determinado cientista quer tanto provar uma teoria que não percebe as evidências contrárias. Claro que a profissional séria tem o maior cuidado com suas experiências, mas falo de um peso inconsciente, que passa desapercebido aos olhos dessa cientista. Suas experiências determinaram suas escolhas: porque pensou em provar x e não y?
Claro que nossas experiências prévias também nos servem muito na construção de nossas carreiras. Claro. Por que haveriam de interferir só para o mal? Uma psicóloga que já tenha vivenciado abuso sexual na infância, por exemplo, pode se atrapalhar quando tiver que atender um caso semelhante. Ou, pode saber melhor o que fazer, já que consegue compreender os sentimentos de uma vítima de violência sexual. O juiz que teve um pai muito rígido, que não dava lugar a argumentações e partia para castigos físicos de acordo com seu entendimento falho das situações, talvez consiga entender melhor que os colegas a respeito da importância da interpretação da lei e não de sua aplicação estreita.
Existe uma história que acho bem bonitinha e que serve de ilustração. Conta a lenda que os Estados Unidos tinha um dilema: precisava de uma caneta que os astronautas pudessem usar enquanto estivessem no espaço. Fizeram pesquisas, gastaram rios de dinheiro e chegaram ao protótipo ideal. Os russos, por sua vez, apenas decidiram levar um lápis…São duas formas de se pensar o mesmo problema, formas essas determinadas pelas histórias dos dois países.
O que você acha? Diz aí?
Beijos e  me liga!

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