Você ainda aguenta viver assim, temendo a violência a cada segundo? 6


Meu irmão, Ricardo, morreu em 23 de março de 1993, no auge de sua juventude, vítima de latrocínio. No dia seguinte foi João, vítima de bala perdida. Dois dias depois, Marcos. Esse não pagou a proteção do traficante dono-do-morro onde morava. Entre Ricardos, Joãos e Marcos, vamos vivendo dia após dia, já impassíveis, a perda de nossos entes queridos, de nossos amigos, de nossos vizinhos. Afinal, uma dor a mais, uma a menos não faz diferença. Nós brasileiros, acostumados às batalhas da vida, nem mais nos emocionamos ao ouvir o noticiário à noite. Dificuldade é o meu nome, pensamos.
Ninguém chorou a morte de meu irmão. Ninguém fora a família e os mais de 200 amigos presentes no enterro. Mas, enfim, éramos poucos…O que é o sofrimento de 230, 240 pessoas? Nada. Nada para o político profissional, que é como chamamos aqui em casa os carinhas que optaram pela política como forma de ganhar dinheiro e não por vocação, por se interessarem por fazer uma sociedade mais justa, igualitária, livre de preconceitos. Duzentas pessoas não fazem diferença algum, imagina!…Só no período das eleições. Ah, aí o bicho  pega. Aí é um tal de sorrir para o eleitorado que é uma beleza! Na época de eleição? Nooossa! Nunca recebo tantos apertos de mão.Nem no meu aniversário eu me sinto “tão festejada”!
Na morte de João, outros tantos o prantearam. Marcos não teve quem chorasse abertamente por ele. O traficante não deixou. Sua mãe teve que chorar escondido. Só duas lágrimas lhe escaparam, depois foi para a vida, dura. Pegou dois ônibus e um trem para chegar no trabalho, no outro dia. Era preciso continuar vivendo, com toda a dor. Seu filho se fora, mas as contas não.
Acontece que você colabora para que outros morram, outros sofram violências inimagináveis. Eu também colaboro, Meu vizinho também. Sabe porquê? Por que votamos no cara “que rouba mas faz”, no cara que mais parece um galã da novela das 21:00, sem examinar seu currículo, seus feitos. Somos responsáveis sim, quando aceitamos receber um salário em troca de nosso voto. Somos responsáveis quando votamos no cara que posa de amigo dos animais e que é um safado, sem-vergonha, sem moral, mas era namorado da amiga da cunhada do cantor de pagode. Tão simpático o moço, né? Até elogiou seus olhos, pegou na mão de minha mãe e lhe disse palavras lindas…
Somos responsáveis quando deixamos que político tenha foro privilegiado. Somos responsáveis quando não vamos às ruas protestar, “porque não temos tempo”, talvez porque o protesto tenha caído no dia da festa de aniversário de sua comadre e de minha colega de trabalho. Ah bom, então tá justificado. 🙁 Somos responsáveis quando deixamos que um Romero Jucá faça um discurso pífio, dizendo que estão fazendo com os políticos o mesmo que fizeram com os judeus na Alemanha nazista, pregando em seus peitos “a cruz dos judeus” e os levando para os fornos crematórios. Se eu tivesse como responder a esse indigno ser humano, diria: Ora, pelo amor de Deus! Primeiro, o símbolo que usavam nos judeus era uma estrela de David. Se o senhor vai usar uma analogia, faça-o com propriedade. Segundo, não compare a situação vivida por pessoas inocentes, expropriadas a força de seus bens, ganhos com o suor de seus rostos, depois expropriadas do próprio direito de viver, com a situação de políticos de sua laia. O senhor está sendo acusado de ladrão. Não apenas pela população, mas pelos operadores da lei, como muito bem apontou Ricardo Boechat. Quando eu e você deixamos que discursos desses sejam criados, que políticos joguem essa porcaria no ar sem vergonha alguma, é porque tem algo de muito podre acontecendo na sociedade. No Japão, políticos pegos em falta se matam de vergonha. No Brasil, continuam seus esquemas fraudulentos. Afinal, até que tudo seja provado vai muito tempo e tempo é o que eles não podem perder! Há de se continuar roubando do povo. Há de se continuar retirando dinheiro que iria para a segurança, para a saúde e para a educação, deixando que os crimes se multipliquem sem punição, que pessoas morram sem atendimento na fila do SUS, que professores continuem ganhando um pouco mais do que o salário mínimo.
Mas, vem cá! Professor é o cara que forma nossos filhos! É ele que deveria ser valorizado e não o político profissional! É o cara da Polícia que enfrenta os bandidos, que põe sua vida em risco para dar um pouco de paz à sociedade! Só que o Policial ganha tão mal que é preciso viver ao lado do cara que rouba, mata, estupra. O Policial vive na mesma favela que o marginal a quem persegue. Só que o Policial presa sua família, teme pelos seus. Coisa que o bandido não tem é isso: amor pelos seus. Nem por ninguém. É a lei dos infernos, na visão dele. Não podemos nem falar em lei da selva, porque a selva não serve de comparativo. Na selva, mata-se para comer. Na vida, o bandido mata para roubar R$ 20,00. Foi o que aconteceu com meu irmão. Morreu por R$20,00 e um “rolê” de carro. Foi o que aconteceu com João também, morto porque dois caras brigavam pelo fruto de seu roubo. E com Marcos? Esse, coitado, fez o que todos nós não fazemos: se insurgiu contra o bandido. Não permitiu que o marginal tomasse conta de sua liberdade, de seu direito de ir e vir. Marcos morreu defendendo sua liberdade. A nossa liberdade. Mas nós ficamos em casa, assistindo o BBB, comentando se o fulano está pegando Beltrana embaixo do edredom.
Eu e você somos responsáveis pelas mortes sim! Amiga, se você não se deu conta ainda, está na hora de tomar consciência desses fatos todos. Sim!!! Somos responsáveis quando baixamos o nível de tudo. Quando chamamos o jogador de futebol de herói estamos sendo conivente com essa inversão de valores que vivemos hoje! Quando aceitamos uma educação mais ou menos, um atendimento médico mais ou menos ou que a operadora de celular nos cobre indevidamente uma conta qualquer sem lutar pelo ressarcimento do que pagamos a mais, “porque é muito desgaste”, continuamos sendo corresponsáveis pelas situações de violência que  vivemos. Se deixamos que as coisas aconteçam do jeito que acontecem, “por preguiça”, “eu não tenho tempo” ou “não adianta”, aí sim é que não adianta mesmo. Somos responsáveis porque somos passivas, temos um comportamento social medíocre. Ah sim! Somos muito solidárias quando morre o filho da amiga. Vamos ao enterro, cedemos nosso ombro amigo, ficamos consternadas. Muito bem. Só que isso é muito pouco. Isso é o que um ser humano com um mínimo de integridade faz. Socialmente, não muda nada. Solidariedade com o amigo é sua obrigação. É minha obrigação. Ter olhos para a sociedade como um todo, para o bem-estar coletivo? Apenas poucas pessoas . Acontece que se continuarmos assim, com poucas pessoas se interessando pelo todo, entraremos em falência. O mundo não comporta mais a atitude desinteressada dos “bons”. Quando os bons se calam, os “maus” tomam conta. Simples assim.
Se eu fico com peninha de meu filho que foi repreendido na escola porque escreveu na mesa da sala de aula, estou dando meu aval ao pequeno: olha, você pode fazer esses pequenos atos de vandalismo que mamãe apóia! O que estou fazendo é dar permissão para que quebre regras. E quem disse que ele irá parar nesse “pequeno ato, insignificante”? A mesa da escola não é da criança. Ela não pode fazer o que quiser com um bem que não é dela. Eu pago mensalidade escolar para meu filho receber educação e não para dilapidar patrimônio alheio. Ah, Cláudia! Não seja tão radical assim!  E onde fica a criatividade? Minha querida, a criatividade fica bem guardada para ser exercida nos lugares devidos, na hora certa. Que eu dê uma folha para meu filho desenhar, não a mesa da escola. Nós vivemos em sociedade. Para que as coisas funcionem minimamente é preciso que respeitemos algumas regras. Se eu acho que regras estão aí para serem burladas e permito que meu filho desenhe na mesa que os filhos de outras mães vão usar, sujando o que não é dele, então devo aguentar que você pegue todo o seu lixo de casa e espalhe na porta de minha casa, já que é mais perto do que a lixeira do prédio. Essa é a sua forma de quebrar uma regra que lhe atrapalha. Como será que eu me sentiria ao sair de casa e esbarrar em casca de melancia, restos de verduras e uma série de garrafas plásticas atrapalhando minha passagem, cheirando mal? Ah, Cláudia! As situações não se comparam…Como não? Se eu permito algumas transgressões “porque tudo bem”, porque você não pode permitir as suas?
Por isso, continuaremos perdendo nossos Ricardos, Joãos e Marcos. Continuaremos sendo vilipendiadas em tudo que nos é mais caro, porque se não somos nós que perdemos o emprego, então está tudo bem. Se não somos nós que moramos na vila e temos que pagar pedágio para entrar em casa, então está tudo bem. Se não somos nós que estamos com um câncer agressivo e precisamos ficar na fila do SUS esperando atendimento por cinco meses, então está tudo bem. Se não é meu filho que morreu por causa de R$20,00, então está tudo bem…
 Você vai esperar que lhe tirem o filho dos braços para entender que o mundo exige que você fale? O mundo exige que você berre! Urre! Diga não! Quero ouvir você dizer junto comigo que nunca mais precisaremos temer sair às ruas. Quero ver você se informar, junto comigo, sobre o político a quem dará seu voto nas próximas eleições. Quero ver você, junto comigo, gritando nas ruas por uma vida mais digna para todo!. Quero ver você, comigo, dando um basta a votações secretas, na calada da noite, sobre temas que dizem respeito a todos os cidadãos!
Desculpem o amargor. Afinal, hoje é dia 23 de março de 2017, aniversário de 24 anos da morte de um cara do bem, jovem, recém-casado, que se importava com todo mundo. Meu irmão.
Beijos e me liguem.

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6 pensamentos em “Você ainda aguenta viver assim, temendo a violência a cada segundo?

  • Marcia sigal

    Chorei ao ler tua crônica. Deves mandar para zero hora para que todos possam ler, afinal o lugar de conforto é onde a maioria se encontra com tremenda dificuldade para entender que tudo que se passa hoje, não deixa a de ser consequência de nossa omissão. Beijos no coração, por essa difícil data que marca a precoce partida de teu irmão.

    • claudia Autor do post

      Obrigada pelo carinho, Marcia. É uma data triste, que me faz pensar em muita coisas, principalmente sobre como tudo piorou, como o medo está se imiscuindo em nossas vidas. Não é mais possível sair de casa despreocupadamente, tomar um sorvete no bar da esquina, parar para conversar na frente da escola dos filhos, porque corremos muitos riscos. E o Estado? Suga o que pode do cidadão, sem devolver em forma de segurança, saúde, educação. Bjs.