[Resenha] A Revolta de Atlas


Livro: A Revolta de Atlas
Título original: Atlas Shrugged
Autora: Ayn Rand
Tradução: Paulo Henrique Britto
Adaptação da capa original: Ana Paula Daudt Brandão
Capa: Miriam Lerner
Editora: Arqueiro
Ano:  2010
Páginas: 1232
ISBN: 978-85-99296-83-7
Três volumes

Sinopse: Na mitologia grega, o titã Atlas recebe de Zeus o castigo eterno de carregar nos ombros o peso dos céus. Neste clássico romance de Ayn Rand, os pensadores, os inovadores e os indivíduos criativos suportam o peso de um mundo decadente enquanto são explorados por parasitas que não reconhecem o valor do trabalho e da produtividade e que se valem da corrupção, da mediocridade e da burocracia para impedir o progresso individual e da sociedade. Mas até quando eles vão aguentar? Considerado o livro mais influente nos Estados Unidos depois da Bíblia, segundo a Biblioteca do Congresso americano, ‘A revolta de Atlas’ é um romance monumental. A história se passa numa época imprecisa, quando as forças políticas de esquerda estão no poder. Último baluarte do que ainda resta do capitalismo num mundo infestado de repúblicas populares, os Estados Unidos estão em decadência e sua economia caminha para o colapso.

Nesse cenário desolador em que a intervenção estatal se sobrepõe a qualquer iniciativa privada de reerguer a economia, os principais líderes da indústria, do empresariado, das ciências e das artes começam a sumir sem deixar pistas. Com medidas arbitrárias e leis manipuladas, o Estado logo se apossa de suas propriedades e invenções, mas não é capaz de manter a lucratividade de seus negócios.

Mas a greve de cérebros motivada por um Estado improdutivo à beira da ruína vai cobrar um preço muito alto. E é o homem – e toda a sociedade – quem irá pagar.
Ayn Rand traça um panorama estarrecedor de uma realidade em que o desaparecimento das mentes criativas põe em xeque toda a existência. Com personagens fascinantes, como o gênio criador que se transforma num playboy irresponsável, o poderoso industrial do aço que não sabe que trabalha para a própria destruição e a mulher de fibra que tenta recuperar uma ferrovia transcontinental, a autora apresenta os princípios de sua filosofia: a defesa da razão, do individualismo, do livre mercado e da liberdade de expressão, bem como os valores segundo os quais o homem deve viver – a racionalidade, a honestidade, a justiça, a independência, a integridade, a produtividade e o orgulho.

Se prepare, pois essa é grande! Pegue seu café, uma poltrona confortável e vamos embora! PODE CONTER SPOILER.

O que eu vou te dizer dessa trilogia que vai fazer sua cabeça pirar? Que é espetacular? Angustiante, tensa, inacreditavelmente lúcida? Dramática, visionária, corajosa? Isso tudo é pouco para expressar a intensidade de meus sentimentos. Resumo da ópera: arrasou total Ayn Rand! Passei dias e dias com ela na cabeça, comentando com as pessoas, trocando ideias, digerindo seu conteúdo. Lamento não ter parado de quando em quando para anotar algumas passagens bacanas. Se bem que, se fizesse isso, levaria três anos para acabar a leitura e teria, no final, três cadernos universitários preenchidos com os “melhores momentos” dos livros. Então, que seja. Que reste na minha memória aquilo que tenha falado mais alto.

Não vou conseguir resenhar um por um dos volumes. Me perdoem. Vou falar aqui a respeito da obra como um todo, que merece nota 10, sem dúvida alguma. Porém, alerto: o início é morno. A gente sente que não vai conseguir ir adiante. Demorei para engrenar na leitura, mas quando isso aconteceu, não conseguia dormir tamanho o impacto que os livros me causaram. Repare que todas as pessoas com quem falei e que leram A Revolta de Atlas comentaram a mesma coisa. Então, fique prevenida quanto a essa dificuldade inicial e persista na leitura.

Agora imagine você se deparar com um Estados Unidos empobrecido, numa época fictícia. Imagine um mundo que se torna pouco a pouco socialista, mundo no qual os gêneros de primeira necessidade começam a faltar. Esse é o cenário dos livros. A linha central da trilogia e que conduz a narrativa é a luta de grandes empresários contra uma corja de saqueadores que inundam o governo dos EUA, determinando que os mais desfavorecidos deviam ser atendidos em suas necessidades pelos mais ricos. Por que chamo de saqueadores? Bem, o termo não foi cunhado por mim e sim pela autora. Ela os define como saqueadores porque utilizavam o discurso de favorecimento dos desvalidos para encobrir seus desvios de dinheiro, seus roubos, sua falta de valores. O discurso era lindo, a prática que ele encobria era imoral. Os saqueadores pilhavam o erário, empobrecendo cada vez mais o povo sofrido. Isso não te lembra algo bem moderno, algo assim…que acontece agora mesmo? 🙂 Não é uma temática atualíssima?

Mas deixa eu explicar melhor. Boa parte da ação ocorre em Nova York, mas não aquela Nova York glamourosa e cheia de estilo que todos nós conhecemos ou ouvimos falar. Nova York, agora, é pobre, caída. Lá está situada a Taggart, empresa ferroviária, a melhor e maior do país. Ela é comandada por Dagny Taggart, mulher forte, poderosa, jovem, solteira, que vive para o trabalho e ama o que faz. Ela não perde o sono e nem a saúde com tititis e mimimis, como boa parte das pessoas de seu tempo (oi? Alguma semelhança com a realidade atual é “mera coincidência”). Ela sonhou a vida inteira em trabalhar nas empresas da família, chegando ao cargo de vice-presidente por merecimento. Dagny só não é a presidente da empresa em razão do tão famoso e mal-cheiroso (desculpe, tive que rimar! 🙂 ) ranço machista. Muitos homens não queriam negociar com uma mulher, então foi melhor para a empresa que Dagny não assumisse o cargo, embora todos soubessem que era muito mais competente do que o presidente da companhia, seu irmão James (Jim) Taggart.

James é um bobalhão inseguro, fraco, que entra em desespero por tudo, que não assume responsabilidades por nada.É um verdadeiro babaca asqueroso, que inveja a força da irmã e, por isso, tenta destruí-la. Pronto, falei! Ufa, isso tava me sufocando. 🙂 Ele impinge a Dagny, e a outras pessoas, ideias que elas não têm. Sabe aquele tipinho que imagina que sabe o que os outros estão pensando, que enlouquece com suas próprias conclusões, reagindo a elas e fazendo bobagem? Pois é isso. O homenzinho é bem assim. Fazia as maiores idiotices e depois dizia que não tinha culpa. Aliás, o “eu não tenho culpa!” vai ser repetido inúmeras vezes no livro, e não apenas por esse personagem. Sim… Difícil né? Difícil viver em um mundo em que ninguém assume sua responsabilidade. O mundo se torna uma criança mimada, que faz as traquinagens que sabe serem proibidas, depois chora esquivando-se da culpa.

Outro dos personagens principais é Henry (Hank) Rearden, dono da siderúrgica Rearden, na qual fabrica um novo tipo de metal, mais leve e mais barato que o aço. Seu uso iria diminuir os custos de toda a indústria nacional, o que ocasionaria uma revolução comparável a revolução industrial. O que ocorre? Seus concorrentes começam a espumar de raiva. Assim como Dagny, Hank é um homem honesto. de princípios, poderoso, que não gasta tempo com “frivolidades”. Ele ainda não sabe relaxar e aproveitar a fortuna que tem. Hank não se permite ter outros tipos de prazeres, a não ser os proporcionados pelo trabalho. Será que ele vai aprender a relaxar? Ou será que permanecerá com essa postura rígida? Hein, hein? 🙂

Hank ama o trabalho. Passou dez anos de sua vida desenvolvendo as pesquisas necessárias para chegar a fórmula do novo metal Rearden. Nesses dez anos, teve que superar inúmeros problemas, dentre eles a desconfiança, a cobiça, a inveja dos mais fracos, inveja essa que se manifesta em sua casa também. Hank é casado e mantém uma vida solitária em seu próprio lar, já que não ama a esposa e tem com ela um casamento de fachada, apenas para não faltar com a palavra empenhada ao casar.Já que havia casado, seria para a vida inteira, nem que isso lhe fosse muito custoso. A esposa, por sua vez, o espezinha de todas as formas, considerando-o “inferior”, sem coração, porque “não pensa nos pobres”, não tem compaixão. Na verdade, é um discurso vazio o dessa moça, já que Hank nunca afirmou não se importar com os mais desvalidos. Ele acredita no valor do trabalho e em pessoas que se esforçam para obter o seu sustento. E é isso. Ele não vê motivos para ter pena de quem não se empenha. A falta de solidariedade fica por conta da esposa Lillian.

 Lillian Rearden é uma mulher amarga, mesquinha, mas que disfarça bem seus sentimentos. Tem ares de grande dama e acolhe em sua casa, para festas e encontros sociais, a “nata da intelectualidade americana”. São  “novos pensadores”, para os quais não há verdades e tudo é relativo, que pregam que a imoralidade e a falta de valores podem ser entendidas de várias formas, inclusive serem apreciadas. Para eles, não se pode ganhar dinheiro. O dinheiro seria uma excrescência, algo nojento, que deve ser combatido. Deve-se trabalhar por amor e só. Anote isso: é desse círculo que nasce o movimento que irá comandar e desestabilizar o país, derrubando a democracia, derrubando o sistema capitalista, colocando os EUA na era das trevas. A partir deles, e de alguns empresários gananciosos e incompetentes, que irá nascer a pior era para a história americana.

Com Rearden também vivem sua mãe e seu irmão Philip, outros dois seres escrotos, que dizem as maiores barbaridades, dirigem impropérios a Hank, achando-o desprezível. Falam misérias, mas não deixam de se beneficiar da riqueza desse homem forte. A gente lê e não acredita em tamanha distorção de valores. Mas, isso não é nada. Muita coisa ainda irá acontecer.

Pausa: estão se dando conta da intensidade de meus sentimentos? Percebem o quanto o livro mexeu comigo? 🙂

Continuando, outro personagem forte é Francisco d’Anconia. Francisco, Dagny, Eddie Willers (braço direito de Dagny na empresa. Como é um personagem de menor importância, não vou entrar em detalhes sobre ele) e James foram amigos de infância. Eles passavam as férias juntos. Francisco sempre ia para a casa de Dagny e James, e sua presença era muito aguardada pela moça e Eddie. Francisco era brilhante, curioso, inteligência beirando a genialidade, hábil em tudo que fazia.Queria sorver o mundo, apreender dentro de si tudo que fosse capaz. Ele e Dagny cresceram e tiveram um romance, que acabou repentinamente. Francisco terminou tudo e sumiu no mundo, deixando a namorada ressentida e sem entender nada.

No desenrolar da trama, Dagny e Hank começam a ter muitos problemas para trabalhar, em razão de leis determinadas por aqueles saqueadores que falei mais acima. O que acontece: o metal criado por Hank tem valor comercial impossível de medir, se torna muito desejado por outros grandes empreendedores, que enxergam nessa nova liga metálica uma forma de tornar seus custos muito baixos, aumentando a qualidade dos produtos que fabricam. Isso faz crescer a inveja e a cobiça dos concorrentes de Hank. Eles espalham boatos de que o metal não está bem formado, que não é segura a sua utilização, porém essas ideias não freiam os homens de ação. Os grandes empreendedores querem ser clientes de Hank. Então, os concorrentes partem para uma nova tentativa de ataque. Nesse momento, espalham que Rearden está perfidamente querendo monopolizar o mercado e que ele era uma das causas do empobrecimento do povo (oi? Como um empresário que entrega valor ao país, que gera milhares de empregos, que gera oportunidades, pode ser a causa do empobrecimento do país? Hein? Você já ouviu esse discurso antes, não ouviu?). Cria-se a lei da igualdade de oportunidades, que em resumo quer dizer que todo mundo tem direitos iguais e todos devem receber a mesma quantidade do metal Rearden para fabricar seus produtos. Todo mundo irá receber x toneladas por mês da nova liga metálica. Ocorre que Hank não dá conta de atender todos os pedidos. Acabam tendo privilégios alguns poucos, que “tem amigos em Washington”. Esses “amigos” determinam quem vai ganhar o que. Sem discussão.

Acontece também que muitas grandes indústrias não tem suas necessidades atendidas, como é o caso de Dagny. As ferrovias Taggart precisam de muita quantidade do metal para a fabricação de trilhos novos, para que suas linhas férreas não deteriorem. Precisa também de locomotivas novas, mas o fabricante das mesmas não recebe metal suficiente para produzi-las. O aço está se esgotando no país e não era uma alternativa viável. Os fabricantes de parafusos também não conseguem metal suficiente para a produção dos parafusos que iriam ser empregados na manutenção das locomotivas e nos motores das diversas máquinas diferentes utilizadas no país inteiro, em diversos setores da indústria. Tudo começa a parar, a pifar, e não há como fazer manutenção em nada. Dá para entender o buraco em que os saqueadores colocaram o país? Em razão de sua ganância, literalmente quebraram tudo que funcionava direito, embolsando muito dinheiro na troca de favores: eu te coloco na frente da lista de clientes para receber o metal Rearden e você me dá uma grana. Mas fique quieto. É segredo nosso! Os EUA virou um país de troca de favores, de gente fraca, que não assume posições. Em razão de sua incompetência para criarem alternativas para suas dificuldades empresariais, começam a atacar e a desqualificar os grandes empresários, que carregam o país nas costas.

Todos começam a falir, um por um. Dagny consegue se manter em pé, a muito custo. A falência se avizinha. Os saqueadores, que representam o governo, continuam sua caminhada de ódio, lançando dia após dia leis sem sentido, sempre usando o bem do povo como justificativa. Eles institucionalizaram o roubo (caraaaamba! Em que país mesmo que eu estou vendo isso acontecer?). A tensão é de arrepiar os cabelos.

Aos poucos, os homens de valor começam a sumir. Da noite para o dia as empresas aparecem sem comando. Os empresários abandonam seus empreendimentos e nunca mais são vistos. Dagny e o macho alpha Hank 🙂 entendem os motivos que os levaram a fazer isso. Entendem, mas não pretendem fazer o mesmo. Querem é lutar, defender o que construíram com tanta dificuldade ao longo de suas vidas. O que acontece? Eles começam a intuir quem será o próximo a desaparecer. Dagny, principalmente, faz isso. É fácil, para falar a verdade. O cara é competente, diferenciado, ganha dinheiro, gera empregos, sustenta famílias? Será o próximo, com certeza. Ela, então, tenta impedir os desaparecimentos, correndo atrás desses empreendedores para tentar dissuadi-los de fugir. Acontece que “alguém” sempre chega antes. Essa pessoa, apelidada de “o destruidor” está sempre um passo a sua frente. Que sufoco!

Agora imagine você que as leis espúrias ficam cada vez mais severas. Decreta-se que os trabalhadores não poderão pedir demissão e nem serem demitidos. Os salários são congelados. Os casos de necessidade deverão ser analisados por uma comissão governamental. Entendeu a meeerda que isso vai dar? Os trabalhadores perdem o estímulo para trabalhar. Já que tanto faz se esforçarem ou não que ganharão a mesma coisa, então o melhor é não gastar energia. Os competentes, e os incompetentes, vão ganhar igualmente, merecendo ou não. Os bons trabalhadores vão deixando de se esforçar, os maus começam a abusar, na medida em que não serão demitidos. Alie a essa situação à falta de matéria-prima para as indústrias. O resultado é o desmantelamento do país. A fome assola os EUA como nunca havia acontecido em sua história. E ó, deixa eu te contar: tem muito mais para ler. Eu não estou te contando a metade aqui. Haverá uma saída drástica para a situação,porém isso você vai ter que descobrir lendo essa trilogia bárbara! 🙂

Há romance, há o desenrolar da história de Dagny e Francisco, há grandes amizades, personagens que você nem imagina e que ainda aparecerão na trama. É, a coisa não tá fácil não, minha amiga! A obra é densa pra caramba!

Durante toda a leitura, entendemos que aqueles que queriam “o bem do povo”, na verdade estavam escondendo suas atividades ilícitas. Eles propõe a socialização das riquezas, e se apossam delas de forma peremptória, manipulando a imprensa e a opinião pública para que fiquem do seu lado. Fácil isso, né? Tirar daqueles que batalharam uma vida inteira para recolocar a riqueza em seus bolsos. Fácil fazer a divisão da riqueza alheia, não acham? Eu também quero expropriar meu vizinho para ter um iate…

A obra bate na tecla de que a incompetência não deve ser premiada e que cada um merece receber na medida de seu esforço. Uma coisa é dar chance de crescimento as pessoas, para que se desenvolvam por seus próprios méritos. Outra coisa, bem diferente, é não exigir-lhes esforço e enriquecê-las do mesmo jeito, apenas porque acham que merecem. Acontece que o mundo não é feito de achismos. Tudo que desejamos pode ser nosso, desde que empreguemos nosso suor, não o suor alheio. Ponto. Os livros também desmistificam a ideia de que o dinheiro é sujo. O dinheiro não é sujo não, minha gente! Ele é a legítima recompensa pelo trabalho bem feito, pelo uso adequado da inteligência de que fomos dotadas. Não é de pirar o cabeção? Hein, hein? 🙂

Beijos e me liga!

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