[A boa de hoje] Louco, eu??? Segunda Parte


Continuação do conto Louco, eu???
Leia a primeira parte aqui.
Desolado, Dr. Freud abre a porta e dá passagem ao sujeito. “Este era o seu grande mal, não conseguir rejeitar atendimento a paciente nenhum, embora não estivesse muito interessado, no momento, em casos como o de Napoleão”, pensou. “Cada caso, no entanto, é diferente do outro. Que oportunidades de estudo me trará este encontro? Não posso perder a chance de lidar com delírios de grandeza tão expressivos como esses!”. “Entendo de histerias, fobias, compulsões, mas não de delírios de tal natureza. Não seria uma chance única?”.
Napoleão entra correndo e se instala no divã do Doutor, feliz como uma criança:
– Eu sabia que o senhor não rejeitaria ajuda a um pobre necessitado como eu, Doutor!
– Vamos lá, Napoleão, o que te aflige a uma hora dessas?
-Ah, Doutor, o de sempre, as minhas dores abdominais. Eu já lhe contei sobre elas? Iniciaram-se após uma batalha feroz da qual tive que me retirar na minha vida anterior. Os inimigos eram em número superior ao nosso, então tivemos que bater em retirada, em um movimento estratégico, mas algo me atingiu, talvez uma bala perdida. Desde então venho sofrendo destas dores, mesmo depois de minha morte.
-Morte? Que morte se posso lhe ver bem aqui em minha frente?
As palavras do Doutor bastaram para deixar Napoleão exaltado. “Como assim? Esse não é o grande Doutor Freud, entendido das doenças da cabeça e do coração?”, pensou Napoleão. “Será que vou ter que explicar tudo a esse senhor?”.
– Claro que me vês, Doutor, apesar de eu ser um fantasma. Todos os apaixonados podem enxergar a alma dos apaixonados que já se foram, e que eu saiba o senhor nutre um grande amor por sua esposa, como eu nutria por minha querida Josefina. Isso sem contar a paixão que o senhor nutre pelo trabalho! Afinal de contas, se assim não fosse, teria me atendido a esta hora? Convenhamos, Doutor! Vou ter que lhe explicar tudo?
Doutor Freud sentiu seus cabelos arrepiarem. Sabia aonde aquela conversa iria chegar. Quando levantava a voz desse jeito, Napoleão encontrava-se a um passo da explosão. Mas algo distraiu o Doutor. Seu discurso tinha algo novo: “como Napoleão sabe de minha esposa, de meu amor? Será que fica a me espionar, a me seguir pelas ruas enquanto passeio com Martha? Só pode ser essa a razão de seu conhecimento a respeito de minha vida íntima!”. Continuou dizendo:
– Não, claro que não, Napoleão. Eu estava apenas lhe testando, averiguando como está a sua atenção! Faz parte, sabe, do processo da entrevista…Você me dá uns minutos? Quando você chegou eu estava com a água fervendo no fogão e…
-Claro, claro, cuide de sua água, mas não demore, por favor. Estou ansioso para lhe contar dos meus problemas!
Doutor Freud sentiu suas pernas falharem enquanto se dirigia ao interior da casa. “Onde fui amarrar meu burro, meu Deus! Eu pensei em Deus? Eu, um psicanalista cético, falando de Deus? Ai, ai, ai, ai,ai! Onde isso vai parar? Bem que mamãe dizia para eu ser médico de crianças, porque iria me incomodar menos, mas não dei ouvidos…É isso que dá não ouvir a voz experiente dos mais velhos! Agora estou aqui, atendendo a um louco que acha que é Napoleão, mas Napoleão morto ainda por cima!”. Com voz suave, para não deixar transparecer o medo que sentia, Dr. Freud pede à esposa Martha que acorde Anna, filha do casal. Achava que Anna, psicanalista como ele, saberia auxiliá-lo se precisasse conter Napoleão em mais um de seus ataques de fúria. Em sua última visita, por pouco que não se foi ao chão a porcelana inglesa de Martha, aquela que guardava com tanto zelo. “Nunca se sabe o que Napoleão irá fazer. É melhor prevenir do que remediar”, argumentou o Doutor, falando com seus botões.
Voltando ao consultório, Dr. Freud põe-se novamente a escutar:
– Pois continuemos…
– Como o senhor demorou! Bom, eu estava dizendo que algo me feriu nos momentos finais da minha última existência, e desde então permaneço com esta dor. E olha que essa existência já acabou há muito tempo! Desde então venho vagando no mundo, em busca de algo que me alivie a dor. O senhor lembra de como foi sua última vida?
– Não, não tenho esse privilégio, disse o Doutor, engasgando-se com a própria saliva.
– Ah, a minha foi maravilhosa, cheia de glórias, tal como a sua atualmente.Tive um grande amor, Josefina, como o senhor já sabe. As vezes acho que essa dor é fruto dos arrepios de amor que sentia por ela…Na minha última batalha, aquela na qual morri, eu me preparava para largar a vida de guerreiro para ficar ao lado dela, mas Deus me levou para essa vida errante antes que eu pudesse realizar meu intento. O senhor conhece Deus?
O Doutor estremece, pensa que “quando chega em Deus…A coisa fica feia! Nesse ponto sempre aparecem os problemas. Napoleão começa a encenar suas batalhas, corre, pula, grita e…zapt! Quebra algo! É melhor ficar atento, tentar não despertar suas paixões…”
– Deus? Sim, como não…Estive com ele ontem mesmo!
– O senhor está rindo de mim? Pois eu, guerreiro afamado, nunca tive esse prazer…Quando o senhor estiver com ele novamente, mande lembranças. Não vá esquecer! Mas também faça-me o favor de dizer-lhe que achei de mal gosto ter tirado a vida de um herói como eu sem ao menos ter dado-me a chance de despedir-me da graciosa Josefina! Já lhe contei como foi a batalha, como guerreava pensando nela?
“E agora, Freud! Pensa rápido! Se eu disser que não, ele vai contar a batalha, mas se disser que sim, o que virá depois? Na dúvida, digo que sim. É uma mentirinha, mas quem não mente de vez em quando? Ai, se não tivesse descoberto o superego, não me importaria,mas a culpa irá me matar depois! Ai, ai, ai! O que faço, o que faço…”. Como não há outro jeito, responde:
– Si…sim…Já tive oportunidade de ouvir seu relato…
-Então vou contar-lhe de novo para que entenda o meu sofrimento. Era madrugada e estávamos em uma região pantanosa, o céu escuro,ameaçador, prometia chuva. Estávamos escondidos atrás de vegetação espessa. A noite era como breu, não enxergávamos nada. E eu só pensava em Josefina…Estava tudo muito quieto, e isso não era bom sinal! Ah, não era mesmo! Quando o silêncio faz-se ouvir, pode-se ter certeza: o inimigo está a espreita!
Nesse momento, Napoleão levanta de um salto do divã:
– O senhor está aí, Doutor?
Freud entende que seu silêncio tornava-se ameaçador para aquele pobre louco:
-Sim, estou te ouvindo, não quero interromper teu relato.
– Então está bem…Ouve-se um tiro, então, de canhão. É o sinal: o  inimigo declarara o início da batalha. Ouço o tropel dos cavalos: pocotó, pocotó, pocotó, e seus relinchos também. As espadas saem de suas bainhas, todos os homens atentos.
“Oh, não, as espadas não! O que irá ao chão dessa vez? É melhor que o tire de dentro de minha casa, senão…”
– Eu também tiro minha espada e avanço em direção ao inimigo. Vapt, mato um, vapt, mato dois, e crash…
-Crash? Pergunta o Doutor, estranhando.
Uma escultura jazia no chão, espatifada em mil pedaços. O Doutor começa a chorar e a amaldiçoar o momento em que se tornou médico. “Porque justo a esfinge foi ao chão? Porque? Era a peça que mais amava! Tenho que evitar um estrago maior e…”.
Não houve tempo. Infelizmente o pensamento foi tardio. Napoleão deleitava-se decapitando estatuetas, com seu riso débil e o suor escorrendo-lhe pelas faces. Sons de pés e espadas se ouviam naquela casa. Quem passasse na rua imaginaria ouvir uma batalha sangrenta, mas era apenas Napoleão. Anna, a filha do Doutor, apenas teve tempo de retirar das mãos do próprio pai a espada que arrancara do louco. O pobre coitado, por sua vez, fugira assustado com a fúria de Freud.
A história acaba aqui.  Doutor Freud não aguentou o sofrimento pela “morte horrenda” de sua coleção e enlouqueceu. Viveu o resto de seus dias no manicômio local, gritando: “não, a esfinge não!”. Quanto a Napoleão? Bem, este continuou vivendo sua vida de alma penada e enlouquecendo psicanalistas desavisados.
 Beijos e me liga!

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