[Livro indica livro, que indica…] Norman Rockwell, pintor


 

Normal Rockwell – autorretrato

O [livro que indica livro, que indica filme, que indica…] de hoje vai falar sobre o pintor Norman Rockwell.

“Subi correndo as escadas e fui até o quarto de Emma. O interior era uma imagem de frustração que podia muito bem ter saído de uma obra de Norman Rockwell, se Norman Rockwell retratasse pessoas cumprindo pena na cadeia.”(O Orfanato da Srta.Peregrine para crianças peculiares, pág. 262)

Mas o que é isso? Por que Ransom Riggs citou o pintor Norman Rockwell? Aliás, quem foi mesmo esse homem?
Norman Rockwell (1894-1978), foi um pintor e ilustrador norte-americano, conhecido por pintar cenas do cotidiano das pequenas cidades americanas, mas também por ter ilustrado 323 capas da revista The Saturday Evening Post. Além disso, ele fez o retrato dos presidentes americanos Kennedy, Nixon, Eisenhower e também de outras personalidades, como a atriz Judy Garland.
O pintor tinha o olhar aguçado. Ele pintou e fez ilustrações sobre tudo que vivia. Retratou, por exemplo, o preconceito racial e a violação dos direitos civis. Na pintura “The Problem We All Live With”, abaixo, Norman expôs a história da menina Ruby Bridges, seis anos,  que precisou ser escoltada por quatro delegados até sua nova escola, que era frequentada apenas por crianças brancas, em 14 de novembro de 1960,  New Orleans, quando ainda vigoravam leis segregacionistas. A Suprema Corte tinha acabado com a segregação em 1954, porém os racistas de plantão fizeram de tudo para que a nova ordem não fosse seguida. Recursos e mais recursos foram impetrados contra a determinação judicial, até que não houve mais jeito e as instituições precisaram acatá-la. Nesse primeiro dia de aula, o juiz federal determinou, sensatamente, que delegados acompanhassem a menina e sua família até a escola, temendo grandes distúrbios. E, pasmem vocês, eles existiram. Milhares de pessoas se aglomeraram para protestar, insultando Ruby, jogando-lhe tomates e outros objetos. No muro, você pode ver pichado o insulto Nigger, considerado muito ofensivo nos EUA.

 

Sabe o que aconteceu? Ruby passou o dia sentada na sala do diretor da escola, porque os pais de alunos se recusavam a deixar que seus filhos se “misturassem” com a menina. Os professores também se recusaram a dar-lhe aulas. Apenas um deles teve a decência de dizer não ao preconceito. As aulas foram suspensas nesse dia. No dia seguinte, mais caos na escola, que encontrou muitas dificuldades para fazer a integração racial.
O quadro foi baseado na foto abaixo.

 

Agora eu te pergunto: quem eram essas pessoas que se achavam tão melhores que a menina Ruby e sua família? Você nota a atualidade desse fato? Ele ocorreu no início da década de sessenta, porém até hoje há distúrbios severos nos Estados Unidos em razão de atos racistas por parte de policiais brancos. Notem que isso não é o enredo de algum livro. Aconteceu no passado e, em grande medida, continua acontecendo nos dias atuais. Triste e cruel.
Na série “As Quatro Liberdades”, de pinturas a óleo, Norman retratou as metas criadas pelo presidente Franklin D. Roosevelt para os Estados Unidos, proferidas no seu “Discurso sobre o Estado da União”, em 06 de janeiro de 1941, em meio a Segunda Guerra Mundial.  O discurso é uma espécie de relatório que o presidente do país expõe anualmente ao Congresso Nacional, apresentando a situação em que o mesmo se encontra e também declarando suas propostas legislativas. A série teve a intenção de incentivar o patriotismo em tempos de guerra.
Na primeira pintura, “Freedom of Speech” (liberdade de expressão), o pintor retratou um homem mais jovem que os demais, com a pele mais escura, vestimentas mais simples, discursando e buscando a aprovação de um projeto para a construção de uma escola nova para a sua comunidade, já que a anterior havia sido queimada em um incêndio. Repare no realismo da cena. Olhe as expressões das pessoas, os detalhes da roupa. Não parece uma fotografia? O trabalho levou dois meses para ser feito e teve quatro outros esboços.

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A segunda pintura, “Freedom of Worship” (liberdade de culto), mostra pessoas rezando juntas, cada qual de seu jeito, representando crenças diferentes. Destacam-se na pintura, bem na frente, um homem judeu, usando Kipá, uma senhora protestante e uma outra católica, segurando um rosário. Achei linda e muito significativa, já que ainda vivemos em um mundo em que as diferenças não são aceitas. As pessoas, infelizmente, ainda acham que possuem o conhecimento da verdade, como se a verdade não dependesse de quem a conta.

Na terceira pintura, “Freedom from Want” (creio que seja mais corretamente traduzida por estar livre de necessidades, ausência de miséria), Norman retrata seus familiares e amigos em um almoço no dia de Ação de Graças, e demonstra os valores americanos de prosperidade e liberdade. Ela representou uma família feliz, podendo comemorar o feriado com mesa farta, ao contrário de muitos que não tinham o que comer. Quando finalizou a obra, Rockwell não teve muita paz. Ele entendia que não devia ter pintado toda aquela fartura enquanto milhares de pessoas passavam fome na Europa. Além disso, o quadro retrata a segurança das relações familiares, o que não havia naquele momento no outro lado do oceano, onde as famílias foram dizimadas pela guerra. E, de fato, a pintura não teve boa aceitação no continente europeu. Nos Estados Unidos, no entanto, se tornou famosa, espécie de símbolo da vida americana. Este é considerado o melhor trabalho de Rockwell e o que mais aparece em catálogos e livros de arte.

Por fim, a quarta pintura, “Freedom From Fear” (livre para não ter medo, em tradução aqui dessa pobre mortal),  mostra crianças em segurança, sendo colocadas para dormir por seus pais, nos EUA, sabendo que não iriam morrer no meio da noite. Foi realizada após um bombardeio em Londres.

Vendo isso tudo, entendo que Ransom Riggs citou o pintor porque retratava no livro uma cena de frustração, que poderia passar por um momento comum, cotidiano, não fosse pelo drama que se desenrolava ao mesmo tempo. Além de tudo, o livro se passa em meio a Segunda Guerra Mundial, momento de insegurança e de muito medo. As crianças do Orfanato não sofrem propriamente pelo medo da guerra, mas em razão de outras questões (veja a resenha aqui).
O autor tem outras obras lindas. No Norman Rockwell Museum você poderá ver suas pinturas e gravuras. Eu não o conhecia e tive uma grata surpresa ao ver toda sua produção. É o tipo de arte que eu gosto, realista.
Beijos e me liga!

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