Chanel e Schiaparelli: inovação e ousadia na moda


Dia desses, em um desses momentos de ócio criativo, fui caçar algo para assistir. Acabei encontrando uma série documental chamada Face to Face, que a cada episódio apresenta duas personalidades famosas, seja da indústria de consumo, entretenimento, moda, etc., que de alguma forma impactaram o mundo com sua existência e seu trabalho.

As duas personalidades têm algo em comum: são concorrentes. E o mais bacana: é o antagonismo entre elas que propiciam que inovações ocorram e que cada uma tenha destaque em determinadas épocas.

Eu escolhi o episódio que aborda o relacionamento profissional entre dois ícones da moda parisiense na primeira metade do século passado: Gabrielle (Coco) Chanel e Elsa Schiaparelli. E não me arrependi porque aprendi um pouco sobre a genialidade de duas grandes mulheres em busca de se destacar em suas áreas de atuação.

Para começar, a infância de ambas, apesar de se darem em condições financeiras diferentes, tiveram grande impacto sobre a forma como elas trilhariam suas carreiras.

Chanel, de infância pobre, viveu alguns anos em um orfanato, com as irmãs, onde foram deixadas pelo pai, após a morte de sua mãe. O pai prometeu que voltaria para busca-las, mas isso nunca aconteceu. Lá, ela aprendeu a costurar e também desenvolveu o desejo de vencer a pobreza. A vida no orfanato em Aubazine iria influenciar fortemente seu estilo.

Schiaparelli viveu uma infância financeiramente rica, mas solitária, na Itália. O pai desejava um filho homem e a mãe a rejeitou, pois não a considerava bonita. Cresceu em uma mansão rodeada pela arte e coisas belas, em um ambiente culto, que influenciou suas criações.

Os cenários da infância das duas estilistas fizeram com que ambas nutrissem um forte desejo de crescerem e de se tornarem independentes dos homens.

Chanel

Chanel, assim que saiu do orfanato, passou a criar chapéus. Fez amizades importantes e com o auxílio de um amigo que considerava seu irmão, abriu uma chapelaria em Paris.

A estilista francesa não gostava da moda da Belle Époque, a era de ouro, da beleza, da inovação europeia, que vai do fim do século XIX até o início da Primeira Guerra Mundial. Para Gabrielle, os espartilhos oprimiam as mulheres e a moda desse período não dava liberdade a elas.

Assim, passou criar roupas com as quais se identificava. Começou a explorar o guarda-roupa masculino, o corte desse vestuário, confeccionados em tecidos como linho, jérsei e tricô. Inspirada, desenhou peças com linhas retas, encurtou barras, deu liberdade às mulheres.

Usando roupas que não marcavam o corpo e adotando o corte de cabelo curto, Chanel virou referência. A moda criada para ela representava algo que as mulheres queriam para si, antes mesmo do surgimento do estilo La Garçonne (como um menino), que surgiu na Europa nos anos 20, após o fim da Primeira Grande Guerra, quando as mulheres adotaram cabelos curtos e estilo de roupas masculinas. Chanel mostrava-se a frente de seu tempo.

Em meio a isso, ao adotar o preto na produção de suas roupas, Coco Chanel cria o famoso pretinho básico, que virou desejo de consumo entre as mulheres.

Elsa Schiaparelli

A Italianinha, como era conhecida, casou-se, teve uma filha, contudo divorciou-se e foi viver em Paris, a convite de uma amiga. Viu em sua beleza não clássica uma forma de ousar no universo da moda, bem como em seu conhecimento no mundo das artes.

A princípio, criou peças com tricô, mas inserindo bordados nas golas e palas, inovando no mesmo tecido explorado por Chanel.

Um de seus modelos, um tricô com a gola trabalhada, foi visto em uma grande feira de roupas e caiu nas graças de um grande comprador, que encomendou cerca de 40 peças. Assim, Schiaparelli se viu tendo que produzir um grande número de itens, um desafio para quem também era autodidata na costura e havia entrando nesse nicho há pouco tempo.

Os bordados de Elsa, detalhados e riquíssimos,  foram o destaque de suas produções. Enquanto Chanel trazia sobriedade em suas criações, Elza buscava ousar e exagerar nas suas.

As roupas produzidas pela Maison Schiaparelli viraram objeto de desejo. Nas ricas festas parisienses, como nos encontros no Café Society, um dos lugares mais bem frequentados da época, as mulheres que desejavam ser o centro das atenções elegiam suas peças.

Desenvolveu coleções de roupas e acessórios em parceria com amigos artistas, como o chapéu sapato, que criou com Salvador Dali, inspirados em uma foto de Gala, a esposa do pintor.

Outra criação marcante em colaboração com Dali, o Lobster Dress, vestido no qual o artista produziu uma pintura de camarão, foi ainda mais icônico ao ser usado pela Duquesa de Windsor logo após o Duque ter abdicado à coroa para casarem. A forma como o camarão está disposta no tecido confere um tom erótico à peça, um escândalo para a realeza.

Se Chanel criou o desejado conceito do pretinho básico, Schiaparelli foi responsável pelo sucesso da cor rosa choque, que chamava de Shocking, ao utilizá-la amplamente em suas criações. Sua intenção não era a de chocar e sim de libertar a mulher, de forma alegre e divertida.

As estilistas chegam a Hollywood

Após a depressão de 29, a indústria de cinema norte-americana acreditava que o investimento em moda, por meio do figurino das estrelas em seus filmes, seria o chamariz ideal para trazer as mulheres de volta ao cinema. Veem em Chanel e sua elegância francesa o investimento ideal e a convidam para trabalhar na indústria cinematográfica.

Apesar de todo sucesso nas passarelas, a estilista não obtém êxito em Hollywood. Há quem diga que Coco Chanel não gostava de ser mandada e que seu ego e o ego hollywoodiano bateram de frente.

Outro ponto, que não é negativo, era o perfeccionismo de Gabrielle com suas criações. Ela via a roupa como um objeto artesanal e sempre estava realizando ajustes até se dar por satisfeita, o que não condizia com o timing da indústria de cinema

Elsa Schiaparelli também é convidada a produzir figurinos para as estrelas do cinema. A exuberância de suas criações logo cai nas graças de atrizes como Mae West e ela obtém relativo sucesso, dessa forma, em Hollywood.

Inovadoras

Schiaparelli idealizava bordados, que mandava produzir na Lesage, tradicional casa de bordados francesa. A partir dessas criações a estilista desenhava toda uma coleção, criando assim o conceito de coleções temáticas.

Vendo todo o êxito da concorrente, Chanel também inova, porém por meio da comunicação: ela cria o conceito de press kit, enviando aos jornais as informações da coleção que seria lançada. Dessa forma, ela passa a treinar os olhos da impressa para entender suas criações.

Olha, nesse momento, meus olhos brilharam de felicidade ao me dar conta do quanto essas duas foram geniais dadas as condições de sua época!

Estamos falando de mulheres inovadoras, certo? Espera que vem mais.

Chanel percebeu nas mulheres o desejo por um objeto de luxo que fosse acessível. Assim, encomendou a um famoso perfumista da época uma fragrância que a representasse. Foram criadas cinco amostras diferentes e ela escolheu a número cinco, pois era exatamente o que queria e ainda era o seu número da sorte. Para acomodá-lo, escolheu um frasco de remédio e passou a vender o Chanel Nº5 em sua Maison.

Ela criava assim a perfumaria de nicho, que é quando um perfume está relacionado a uma marca. Até então, moda e perfumaria não caminhavam juntos.

Schiaparelli logo tratou de criar o seu perfume também. Tinha com ela um molde do busto de Mae West, usado para criar um vestido para a atriz. Usou o molde para criar um frasco de perfume e deu vida ao Shocking, a fragrância de sua Maison.

Segunda Guerra Mundial

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, Chanel decide fechar sua Maison. A venda dos perfumes de sua marca é suficiente para que ela leve uma vida confortável.

Durante a Guerra, envolve-se com um soldado alemão, na tentativa de intervir para libertar seu sobrinho preso pelos nazistas. Além desse relacionamento, a estilista era próxima ao primeiro ministro do Reino Unido. Com esses laços, a suspeita de que era espiã tomou força. Chegou a ser presa, mas foi solta, a pedido de Winston Churchill.

Parece enredo de filme, não é? Mas, é vida real.

No mesmo período, Elsa lançou uma nova coleção, tentado dialogar com o espírito da época, mas fracassou. Foi para os Estados Unidos, retornando após o fim da Segunda Guerra.

Ela reabriu sua Maison e passou a trabalhar de onde parou, como se o mundo não houvesse mudado nesse tempo no qual pausou seu ofício. Porém, o mundo mudou, uma guerra aconteceu. Além do mais, enquanto levava uma vida até tranquila na América, os parisienses viveram todo o conflito, encontrando-se no pós-guerra fragilizados, submetidos ainda a fome, frio, falta de transporte e outras consequências da Segunda Grande Guerra do século vinte. 

Sem novas inspirações e sem o apoio de seus amigos artistas, em 1954, Elsa Schiaparelli realizava o último desfile de sua casa, para logo depois fechar as portas.

No mesmo ano, Chanel decidiu reabrir as portas de sua Maison, um pouco por estar incomodada com o sucesso de um novo estilista e a silhueta que ele propunha. Era Christian Dior, que lançava o que ficou conhecido como new look, cujas peças tinha como característica a cintura marcada. As pessoas sentiam a necessidade de sonhar e curar suas feridas após o período traumático de guerra, assim a recriação de roupas de estilo clássico e um certo ar conservador estavam em voga. Para Gabrielle, nada mais era que reinvenção dos antigos corseletes aprisionando novamente os corpos femininos.

Nessa época, os franceses ainda não a haviam perdoado por seu envolvimento com o oficial alemão. Junto a isso, ela não trouxe inovação em sua nova coleção, trazendo às passarelas as mesmas linhas retas e modelos que não marcavam o corpo feminino, o que lhe rendeu muitas críticas.

Mas, Coco Chanel era uma mulher segura de si. Seguiu firme em seu trabalho e com o sucesso de suas peças nos Estados Unidos e as críticas elogiosas nas revistas de moda de lá acabaram por dobrar os orgulhosos franceses, que voltaram a valorizar suas criações.

Até hoje, a Maison Chanel é referência em moda e alta costura. Os desfiles de novas coleções, lideradas pelo estilista Karl Lagerfeld, são ansiosamente esperadas nas semanas de moda francesa. E a inovação continua sendo a tônica da grife, que mantém a essência criada por Coco Chanel, mas que ousa ao criar ambientes como supermercados e aeroportos só com produtos da marca, transformando qualquer lançamento de coleção em verdadeiros shows.

Mulheres inspiradoras

Veja se não é para ficarmos fascinada por essas mulheres,  que na primeira metade do século passado, além de autodidatas, eram inovadoras, empreendedoras e buscavam conquistar espaços de destaque na sociedade por meio de seus trabalhos? Muita inspiração, não?

Eu terminei o documentário apaixonada por essas duas figuras e desejando saber mais ainda da história delas, tanto que meu navegador na internet ficou lotado de guias abertas em pesquisas sobre as duas estilistas.

As carreiras dessas mulheres alçaram voo após os 30 anos e elas se mantiveram na ativa em uma época no qual o papel da mulher ainda era o de serem mães e donas de casa. Fizeram a escolha de seguir seus sonhos em um período em que não tínhamos muito direito de decidir por nós mesmas.

Eu espero que, como eu, você também tenha curtido conhecer essas personalidades da moda. Sei que o documentário pode dar a impressão de apenas retratar uma grande rivalidade, o que não me parece saudável, mas eu enxergo que elas foram concorrentes e que é isso que fez com que a cada momento uma buscasse inovar mais que a outra.

A Maison Chanel segue sendo um sucesso. O olhar de Gabrielle Chanel sobre a moda e o papel da mulher promoveu uma revolução em nossas vidas. A expressão pretinho básico, um item que a maioria de nós tem em nossos guarda-roupas, a tornou imortal.

A Maison Schiaparelli reabriu as portas há alguns anos. A marca foi comprada por Diego Della Valle em 2006. Fico feliz, porque Elsa, assim como Chanel, superou obstáculos e brilhou em seu tempo. É outra história que merece ser contado e reconhecida, não só para quem é do universo da moda, mas para todas as mulheres que precisam e querem inspiração.

E agora me conta nos comentários o que achou desse artigo.

Beijos e me liga!

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Para saber mais:

Maison Schiaparelli

Por que Elsa Schiaparelli é relevante?

Inside Chanel

Documentário Face to Face – disponível na Netflix

Coco Chanel, a revolucionária da moda

Coco Antes de Chanel

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