Uma criança fez meu coração sangrar


Foto: Prabhu B Doss A Balti Gal. via photopin (license)

A primeira parte dessa história ocorreu em 2009. Vocês irão entender porque a trago novamente.

“Meu coração está doendo… Chegava em casa hoje, depois de te deixado minhas filhas na escola, quando fui surpreendida por uma batida na janela do carro. Uma menininha pedia esmolas. No susto, acabei arrancando sem lhe dar atenção, mas vi seu olhar triste pelo retrovisor.

Fiquei me sentindo esquisita, chateada. Tinha uma boneca de minha filha menor no carro, já separada para doação. Levei até a menina e fiz “amizade”. Seu nome era Jennifer. Pois Jennifer olhou a boneca e abriu um sorriso de orelha a orelha. Deixou à mostra lindos dentes, branquinhos como o luar. Tive que segurar as lágrimas. O que fora capaz de fazer uma pequena boneca.. Que alegria era aquela? Tão simples de de ser proporcionada!

Conversamos um pouco e encontramos um nome para a nova “filha” daquela menina. Seria chamada de Titi. Jennifer beijou a filha, examinou se tava cocô, virou a boneca do avesso. Perguntei se estudava e ela me respondeu, insegura, que estudava “na Fátima”. Perguntei por sua mãe e a menina me apontou uma mulher mais adiante, esmolando.

Não consegui ficar mais. Entendi que não poderia fazer nada além disso. A mãe esmolava e colocava a filha para ajudar. Algumas pessoas foram cercando Jennifer, como se a aproximação de algum adulto “não esmoleiro” tivesse mostrado que a menina não era perigosa. Era apenas uma pequena criança, como tantas que esmolam nas ruas da minha cidade. Infelizmente não tenho bonecas para distribuir a todas. Infelizmente não poderei fazer o mesmo por todas as crianças que encontrar por aí…Não posso parar em todas as esquinas para conversar com Jennifers, Marias e Clarices, embora queira muito poder proporcionar alguns momentos de alegria para essas vidinhas tão sofridas”.

Agora a segunda parte dessa história, que nunca contei a ninguém:

Trabalhei alguns anos em um hospital de minha cidade.Sou psicóloga e atendia crianças vítimas de violência, principalmente violência sexual. Eu e me minhas colegas recebíamos de quatro a cinco crianças por dia, tristes, maltratadas, retiradas de suas casas por falta de quem as protegesse. Não aguentei muito tempo. Imagine você atender meninas de cinco anos abusadas sexualmente? E crianças com deficiências graves, com zero de possibilidades de defesa? Era um trabalho pesado, difícil, triste. Eu queria ajudar, mas era tão pouco que podia fazer…Tanto no caso da Jennifer, quanto no das crianças que eu atendia, minhas possibilidades eram pequenas.

Meu trabalho no hospital, resumidamente, consistia em atender crianças e adolescentes  vítimas de violência, ouvir seus relatos e gerar relatórios para ajudar a instrumentalizar o inquérito policial. Tudo para buscar a prisão dos abusadores. O Judiciário, bem como Departamento de Proteção a Criança e ao Adolescente (me perdoem se estiver usando erroneamente o nome do departamento da Polícia. Muitos anos se passaram e eu já não lembro bem do nome correto. Se alguém souber e quiser me mandar por e-mail, mensagem, qualquer meio, agradeço),  estavam se dedicando seriamente a essa tarefa. Nós, do hospital  também. Gerei inúmeros relatórios para a Polícia, fui testemunha de acusação quando os abusadores eram pegos, dei assistência à crianças e adolescentes. Fiz o que eu pude (todos os envolvidos com os casos dessas crianças davam sua alma para ajudar), mas mesmo assim eu me sentia um lixo. Não conseguia dormir pensando que muitas das crianças atendidas no hospital voltavam para as casas onde haviam sido abusadas. Na época eu tinha dois filhos e o terceiro estava a caminho. Duas meninas e um menino, muito cuidados, muito amados. Como trabalhar com abuso sexual de crianças? Eu sentia o seu pavor! Era horrível. Tive que largar.

Mas porque te conto essas histórias tristes hoje? Porque ontem, por um acaso do destino, reencontrei Jennifer, agora crescida. Quer dizer, ela me reencontrou. Se não tivesse me chamado, não a teria reconhecido. Me abordou na rua, no mesmo ponto em que nos encontramos na primeira vez. Ia do trabalho para a faculdade. Me abraçou longamente, tagarelou e continuou seu caminho. Essa menina, hoje uma linda e jovem mulher, me fez chorar pela segunda vez.

Reencontrei também uma das meninas que atendi no hospital, anos atrás. Essa não havia mudado nada. Lembrei dela na hora, porque foi um dos meus primeiros casos, também um dos mais chocantes. Impossível de esquecer.  Os olhos permaneciam tristes, o rosto ainda muito jovem. Vera (nome fictício), já é uma mulher de 21 anos, mas ainda parece a menina que conheci aos cinco. Nós nos encontramos na fila do banco. Ela me olhou, de esguelha, abaixou a cabeça, me olhou novamente…Aproximou-se, tímida, se apresentou e disse mais algumas poucas palavras:

– Obrigada por ter me olhado como ninguém olhou.

E correu para fora do banco, chorando. Quase corri atrás. Quase corri atrás dela e de Jennifer para dizer que as duas salvaram meu dia, que estava azedo, nublado. Quase fui atrás dessas duas moças recém saídas das fraldas para dizer que  o fato de terem me reconhecido fez valer todos os dias de angústia que vivi nos anos anteriores, em razão de todas as crianças em situação de vulnerabilidade que cruzaram meu caminho. Fiz pouco, fiz o que pude. Parece que alguma coisa ficou para essas duas almas sofridas. Gratidão enorme, meu Deus!

O dia estava ruim. Em razão da “coincidência” (será? Coincidência ou Providência? Ah, pois é…), encontrei duas pessoas de meu passado nem tão distante assim. Duas pessoas bem diferentes, carentes, sofridas. Apenas por terem falado comigo, o cansaço passou, o desapontamento evaporou e segui a vida feliz.

Quero finalizar com esse vídeo do Thiago. Não é novo. É lindo e tem muita relação com o que eu conto aqui. Ubuntu para você.

Beijos e  me liga.

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