[RESENHA] Casa das fúrias, de Madeleine Roux


Livro: Casa das fúrias
Título original: House of furies
Autora: Madeleine Roux
Tradução: Guilherme Miranda
Editora: Plataforma 21
Ano:  2007
Páginas: 112
ISBN: 978-85-92783-21-1

Sinopse: Louisa Ditton não tem para onde ir. Estamos no século XIX. Sozinha e com medo, Louisa acaba de escapar do terrível internato inglês onde repressão e castigos dolorosos eram a principal lição. Assim, quando encontra uma idosa que lhe oferece emprego em uma hospedagem, Louisa acha que finalmente está segura. Logo que chega à Casa Coldthistle, entretanto, a jovem nota algo estranho. O misterioso proprietário do lugar – o sr. Morningside – proporciona a seus hóspedes não um simples lugar para dormir, mas o temido descanso eterno. Numa espécie de tribunal sombrio, o sr. Morningside e a criadagem executam sua justiça obscura àqueles que vivem impunes, e Louisa será obrigada a fazer parte desse grupo de impiedosos justiceiros. Diante disso, a jovem começa a temer pela vida de Lee. Ele não é como os demais hóspedes: carismático e gentil, o rapaz desperta nela o ímpeto de salvá-lo do julgamento iminente. Porém, nessa casa de mentiras e putrefação, como Louisa poderá saber quem carrega a verdade?

Casa das fúrias é um livro que te faz passar boas horas lendo. Não é o melhor livro de todos os tempos, mas diverte. Não é surpreendente, mas tem lá suas reviravoltas. Ponto. Poderia acabar por aqui. Tudo foi dito na sinopse e nesse pequeno parágrafo. E isso não é sinal de que o livro é ruim. Apenas estou sentindo dificuldades de escrever sem dar o famoso spoiler. Mas, enfim, vou sentir a mesma dificuldade para descrever todos os livros que ler, então deixa para lá.

Louisa é uma jovem solitária, que fugiu de um internato com a ajuda da única amiga que tinha e foi morar nas ruas de Malton, North Yorkshire, condado mais ao norte da Inglaterra. Para sobreviver, lia a sorte dos passantes no mercado da cidade, o que desagradava muito os moradores locais, desejosos de expulsá-la para longe. Louisa sabia que sua atividade era ilegal, sabia que enganava inocentes, mas via nela uma forma de sustento, para que não tivesse que voltar para Pitney, o orfanato, onde fora abandonada pelos avós.

Um dia, nossa “heroína” foi abordada por uma senhora que mais parecia uma mendiga, esfarrapada, encarquilhada. A senhora puxou um papo estranho e deu de presente para Louisa uma moeda de ouro. A menina desconfiou, porque ninguém dá presentes de graça, mas a “velha” não se abalou, afastando-se e deixando Louisa com sua pequena fortuna e seus pensamentos. Bem, nossa personagem estava com fome e viu naquela sorte inesperada a oportunidade de comer melhor, decentemente. Então, dirigiu-se a uma confeitaria e pediu para comer tudo que via. Imediatamente o atendente identificou que uma menina esfarrapada como aquela não poderia ter dinheiro para pagar tudo que pedia. Se tinha, o dinheiro só poderia ser fruto de roubo. É aqui que a aventura de Louisa – e a nossa! – começa.

Aos gritos de ladra, o dono da confeitaria expulsou a menina de sua loja. Agora imagine: Louisa já não era bem quista por ler a sorte de incautos no mercado de Malton. A isso se somou a acusação de roubo. Pronto! Prato feito para a cassarem por todos os cantos da cidade, desejando puni-la com a forca. Por alguns momentos ela escondeu-se em um beco, mas o mesmo era sem saída. Louisa não ia conseguir fugir e era questão de minutos que a descobrissem. Quem, então, aparece para salvá-la? A senhora maltrapilha da moeda de ouro. A velha – forma desdenhosa como Louisa se referia à estranha naqueles primeiros momentos – lhe oferece mais do que ajuda. A oferta era de emprego em um lugar em que havia comida em abundância, uma cama limpa e um trabalho honesto. As opções da fugitiva eram aceitar ou morrer. A vida foi escolhida e as duas mulheres partem juntas para a Casa Coldthistle.

Aqui preciso fazer um parênteses. Embora eu saiba que não vá fazer nenhuma diferença na sua leitura – você vai esquecer dessas dicas assim que começar a ler o livro 🙂 – quero te dizer que nas primeiras 20 páginas do mesmo a autora já nos dá dicas a respeito do seu final. Ela nos conta sobre dois dos principais mistérios da história, mas a gente não percebe que aqueles dados são importantes. Eu, lendo sobre eles, pensei que eram “histórias para preencher os espaços em branco”, palavras colocadas no papel inocentemente, para ajudar a construir a narrativa. Ahahahahha! Ledo engano (leia isso com voz de trovão, ria de forma diabólica, como vemos em filmes de terror :)). Um bom escritor não usa palavras a mais. Nada sobra e nada falta em uma boa narrativa. Ficou curiosa? Ah, pois é…:) Esse era o objetivo.

Enquanto vive na Casa Coldthistle, Louisa faz planos de roubar o que puder e fugir o mais breve possível, pois descobre que coisas muito estranhas acontecem naquele lugar. É apavorante saber que todos que se hospedam na casa estão marcados para morrer e o trabalho dos criados é mantê-los confortáveis, como se estivessem em um verdadeiro hotel, até que isso aconteça. Os hóspedes chegam até ali atraídos por uma força poderosa, achando que estão indo passar férias em uma casa de águas termais e não imaginam que não sairão vivos.  Louisa arquiteta sua escapada, mas fica dividida entre ir, abandonando a boa vida que estava levando na Casa desde que havia chegado, ou ficar e tentar salvar a vida de um dos hóspedes, Lee, por quem já começava a nutrir sentimentos secretos.

Acontece que o lugar não é apavorante “apenas” pelas mortes dos hóspedes e sim também em razão de outras coisas. Essas “coisas” eu não posso nomear. Não posso te contar sob pena de tirar a graça da leitura.

Não posso dizer se havia na escritora o desejo de dar a sua obra um significado maior. Não sei se Madeleine Roux pretendia participar de algum debate mais profundo, “escondendo” dentro da ficção algum tema importante. Posso te dizer que eu tenho a tendência a querer tirar pensamentos mais profundos de tudo que leio. Não sei se a estranheza da menina (Louisa tem alguns traços diferentes, que você descobrirá na leitura e que a diferenciam de uma jovem “comum”), bem como a de seus colegas de trabalho, foram pensadas para suscitar discussões ou apenas são personagens de uma história em que não havia o desejo de levantar bandeiras. Sei dizer que essas “estranhezas”, essas diferenças, é o que nos faz únicas. Ser diferente não quer dizer ser ruim, mais feia ou incapaz. Ser diferente é apresentar algo só seu. Portanto, é um privilégio, embora possa ser um privilégio difícil de carregar enquanto somos muito jovens. Quando temos pouca idade, queremos ser iguais aos outros, queremos “sumir” na multidão, nos mimetizar com o ambiente. Depois de uma certa idade, entendemos que há diferenças que nos engrandecem, nos tornam originais, incomparáveis. Eu acho isso bacana. E você?

Como eu disse, é uma boa ficção.Não um livro inacreditável, daqueles que você não para de pensar por um segundo, mas ainda sim muito bom, com uma escrita fluida, cativante. Entenda que é um livro mais voltado para o público jovem. Talvez eu já tenha lido tanta coisa boa nessa vida que Casa das fúrias não tenha me surpreendido tanto. Pode ser isso.

Ah! Beijos e me liga!

 

 

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