Conto de Maria Pia


Maria era casta, Maria era pura. Miúda, cabelos trançados, modos de criança, vivia dividida entre a escola e os trabalhos na igreja, aos quais era levada pela mãe beata. Maria era o orgulho da família Antão.

Todos os dias eram iguais para a menina Maria, que levantava antes do sol nascer para oferecer suas preces a todos os santos que conhecia. De joelhos, mãozinhas cruzadas, Maria orava, batendo os cílios longos, deixando escapar lágrimas de comoção pelas histórias de Santa Bárbara, Santo Antônio e Santa Cecília. Depois, Maria corria e continuava sua existência, esperando a tarde chegar para ir à igreja Santa Terezinha, na frente da Redenção. A mãe beata dava glórias a Deus. O pai, vaidoso, sentava-se no Bar do João, deixando que o vento levasse a todos os cantos a notícia de que em sua casa abrigava a mais delicada flor. Nas redondezas do Bom Fim, todos conheciam a menina Maria, da familia Antão, que cresceu naquelas ruas, indo e vindo, vindo e indo, sempre constrita, modesta, pia.

Ninguém sabia que, a noite, a menina chorava, escondidinha embaixo dos cobertores. Parecia que mãos apertavam seu coração. Maria achava que ia morrer, a pobrezinha! Queria contar aos pais sobre a doença que lhe vitimava, fazendo-a suar em madrugadas frias, tremer nos dias mais quentes, esquecer-se das lições da escola e dos deveres do lar.

Maria queria falar da dor que ia em seu peito, nascida depois de conhecer o moço João, mas desistia em seguida, imaginando que faria sofrer a mãezinha. Mãezinha não merecia preocupações. E paizinho, sempre tão festejador, perderia a animação se soubesse como ardiam aquelas feridas invisíveis.

E o mal-estar aumentava a cada dia. Era encontrar com João que pronto! Doía mais o coração da menina Maria. Bastava um olhar desviado do padre, na missa dominical, para fazer as pernas de Maria amolecerem. Se recebesse um bom dia, ficava com a voz estrangulada, presa na garganta. Se João lhe estendesse a mão, Maria via o mundo rodopiar.

Era preciso dar jeito naquilo, pensava Maria nas noites escuras em que o sono não vinha. Era preciso ir ao médico,  orar mais e redobrar sua fé. No dia seguinte, como em todos os outros, encontraria Santa Terezinha, a santa que via santidade e perfeição nos pequenos gestos feitos com amor, então ela haveria de dar-lhe a cura.

Mal havia raiado o dia, já ia Maria para a igreja, tranças feitas, bolsa pequena, rosário na mão. Começou a liturgia e a menina rezou com fervor. Foi aí que avistou João. Sorrindo, aproximou-se do moço e cravou-lhe uma faca no peito, tirada da bolsinha de mão. Salpicada de sangue, sentiu que renascia. Os males todos tinham se ido. Agora mais leve, dirigiu-se ao altar, depositando a faca aos pés da estátua da Santa.

– Feito com amor, minha Santa Terezinha.

Então foi-se, de braços com mãezinha.

 

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