[Conto] Louco, eu??? – primeira parte 1


Escrevi o conto abaixo há muitos anos, na faculdade ainda. Encontrei o original guardado entre minhas coisas. Achei bonitinho, dei algumas risadas, então resolvi reproduzi-lo aqui, com pequenas modificações. Divido-o em partes, para não cansar os leitores. Por algum motivo que só o capeta sabe explicar, a configuração dos parágrafos não obedecia ao meu comando. Ficou como deu. Boa leitura!

Louco, eu???

Iniciava-se o ano de 1900. Bonita época aquela! Apesar do tempo frio, todos saíam as ruas para brindar a entrada do novo ano e do novo século. Em Viena, as ruas tomavam-se de pessoas vindas de todos os cantos da Áustria, e o som de canções de felicidade chegavam aos ouvidos do Doutor. Ele odiava a Áustria, odiava os austríacos e tudo que se relacionasse com o país onde vivia. Pelo menos era o que dizia, embora os amigos desconfiassem que esta era uma das tantas manias do Doutor: reclamar de Viena. Acabavam por não ouvir suas lamúrias diárias. Haviam se acostumado com a cantilena. Não importava. No fundo, achavam seus incontáveis amigos, seu coração derretia-se pela bela pátria de Johann e Richard Strauss, de Mozart, Beethoven e Schubert. E o que falar do Danúbio Azul? Quem, naquele tempo, era capaz de dizer que não o amava?

Pois o Doutor estava lá, naquela noite em Viena, espiando pela janela e divagando a respeito do que fora sua vida até aquele momento, no que a tinha empregado e se valera o esforço despendido. Pensava em seus pacientes, casos difíceis que lhe exigiram muitas e muitas horas de estudos. Passara a dormir pouco a cada noite, porque os enigmas que a vida  lhe impunha exigiam solução. Os leitores que o perdoem: ele não era íntimo desses momentos de melancolia e não gostava de se sentir “fraco”, mas as festas, a saudação ao novo ano, faziam com que repensasse a vida.
Já passava muito da meia-noite e, sempre solícita, sua querida Martha, a esposa amada, oferece-lhe um prato de sopa quente, para que não tivesse pesadelos nas poucas horas em que descansaria o corpo. Doutor aceita e se perde em pensamentos enquanto sorve com gosto o caldo quente: “como é que um dia puderam pensar que mantive relacionamento amoroso com minha cunhada, irmã de Martha? Eu, um homem tão sério, tão apaixonado? Nunca dei motivos para o falatório! Certo é que Martha já não possui o frescor da juventude, mas onde encontrar companheira melhor, mais compreensiva e mais atenciosa? Em sua irmã que não haveria de ser!”
No outro lado da cidade, um solitário vagava por entre a multidão. Não via ninguém, não ouvia nada, mas todos o notavam pelo figurino exótico. Levava a mão direita pousada na região abdominal, pensando que aquela úlcera iria levá-lo à sepultura. “Como dói!”, exclamava o homem. “Devo procurar o Doutor o mais breve possível”, elocubrava, “e existiria momento melhor que este? O Doutor é homem ranzinza, está ficando velho, não sabe aproveitar o que a vida ainda lhe oferece. Ele é avesso à festas, demonstrações de felicidade como as dessa noite. Por certo estará em casa! É tarde, bem o sei, mas o Doutor é meu amigo. Certamente não se importará de receber uma visita, mesmo tendo em vista o adiantado da hora. Obviamente poderá dispor de toda sua atenção no meu caso, e tenho fé que sairei de lá curado”.
Momento depois a campainha toca na casa do Doutor, mas ele não se mexe para atender à porta. Estava concentrado em seus escritos, sorvendo com prazer a fumaça do cachimbo. Sabia que fumar não era o hábito mais saudável de se cultivar, mas tinha prazer com isso. E, oras, não era a isso que vinha dedicando seus dias, ao princípio do prazer? Os pensamentos corriam livre, até que Doutor foi chamado à realidade. “Sim”, pensou, “há alguém, certamente um infeliz, batendo em minha porta. Não é imaginação de uma mente cansada”. “Deve ser um bêbado qualquer, que se perdeu de seu caminho e foi pedir ajuda na primeira porta em que conseguiu tocar a sineta”. Lentamente o Doutor levantou-se da poltrona antiga, surrada pelo uso, e dirigiu-se até a janela para dar uma espiada. Ao passar por sua coleção de estatuetas, sentiu uma pontada de orgulho: “certamente ninguém se interessa tanto por arqueologia como eu e certamente ninguém tem tantas peças encontradas em escavações egípcias!”. Aquela coleção era o orgulho do homem de compleição pequena, barba branca muito bem aparada. Através dela, olhando para as peças cuidadosamente arrumadas em sua mesa de estudos, o Doutor viajava para tempos muito distantes, pensava em civilizações antigas e em suas dificuldades diárias. Pensava nos primórdios das ciências, nos percalços dos pensadores gregos, romanos, egípcios e assim recuperava o ânimo, debilitado pela labuta diária. “Propor uma nova forma de conhecimento era tarefa sobre-humana! Teria ele condições de ir até o fim dessa empreitada?”, pensava. Por entre as frestas da cortina, então, o viu.
Era Napoleão, conhecido cidadão vienense que perdera o juízo após a morte da esposa, tomada de chagas pelo corpo. Alguns disseram que era “a peste”, mas ninguém se atreveu a precisar. Médicos, curandeiros, charlatões de todas as espécies tinham tentado acudir a moça de saúde frágil, mas todos os esforços restaram inexitosos. “Oh não, Napoleão não! A esta hora da noite? Porque ele insiste em visitar-me para contar suas desventuras gástricas? Por certo pode ser lido na placa na entrada da casa: Dr Sigmund Freud, Psicanalista!”

Continua na próxima segunda. Juro que não vou massacrar ninguém: será a última parte!

Beijos e me liga!

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