[Resenha] Antes de nascer o mundo – Mia Couto


Livro: Antes de nascer o mundo
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Ano:  2009
Páginas: 276
ISBN: 978-85-359-1476-4

Sinopse: Jesusalém, ermo encravado na savana, em Moçambique, abriga cinco almas apartadas das gentes e cidades do mundo. Ali, ensaiam um arremedo de vida: Silvestre e seus dois filhos, Mwanito e Ntunzi, mais o Tio Aproximado e o serviçal Zacaria. O passado para eles é pura negação recortada em torno da figura da mãe morta em circunstâncias misteriosas. E o futuro se afigura inexistente. Silvestre afiança aos filhos e ao criado que o mundo acabou e que a mulher – qualquer mulher – é a desgraça dos homens. Mas um belo dia os donos do mundo voltarão para reivindicar a terra de Jesusalém. E não só isso: uma bela mulher também virá para agitar a inércia dos dias solitários daqueles homens.

What a fuck is this???? Traduzindo: que tiro foi esse, minha gente???? Não, espera que ainda estou meio zonza. Cinco estrelas que nada! Esse merece duzentas estrelas! Vou arriscar uma predição: já concorre aos melhores do ano. O ano mal começou e esse aqui já está na categoria “amorzinho para uma vida inteira”.

O livro está escrito em prosa, mas é pura poesia. Os personagens são uma delícia, delicados, paradoxais, porque ao mesmo tempo em que tem uma pureza de alma, possuem também uma complexidade importante. Difícil de entender, não? Deixa eu tentar te explicar.

Silvestre Vitalício leva os dois filhos, um empregado e um parente (o Tio Aproximado) para viverem em uma reserva, apartado da civilização. Para os filhos, diz que o mundo acabou e só restaram eles a continuar vivendo. Os adultos, obviamente, sabem o que há por trás da mentira. Nós, leitores, só vamos saber de tudo nos últimos capítulos.

Nessa reserva não entram notícias de fora. O Tio Aproximado é quem trás os mantimentos necessários para a vida naquele lugar selvagem, mas está proibido de falar com as crianças sobre o que ocorre no “lado de lá”, já que supostamente não há lado de lá.

Mwanito, o filho menor, é a pureza em pessoa e quem narra a história. Ele chegou na reserva com três anos de idade e nunca questionou de onde o tio comprava os mantimentos que trazia. Ntunzi, o irmão mais velho, é mais despachado, mais intenso. Viveu no “lado de lá” e se lembra como eram as coisas. Aos poucos veremos que nutre uma certa revolta contra o pai. Ele diz coisas que não sabemos se é fantasia de criança ou lembrança de fatos. Só saberemos de tudo no final do livro.

Durante os oito anos em que vivem na reserva, os dois irmãos são companheiros. Ntunzi tem ciúmes de Mwanito, por entender que é o preferido do pai, mas isso não o impede de amar o irmão. É com Ntunzi que Mwanito aprende a ler e a escrever, escondido dos adultos.

O pai, Silvestre, é homem de poucas palavras e se esquiva de todas as perguntas que Mwanito lhe faz. Chega a ser angustiante o modo como ele aparta o menino de todo e qualquer conhecimento sobre a vida fora daquele lugar. Mwanito pergunta sobre a mãe e o pai responde evasivamente. Pergunta sobre outras coisas e recebe respostas mais evasivas ainda. Confesso: em dado momento me senti mal pelo menino e por sua falta de conhecimento sobre tudo. Imagine você vivendo com segredos de família? Imagine você sabendo que existem coisas a serem ditas e que te escondem? Imagine você, tendo um buraco emocional na alma (Mwanito era órfão, mas não sabemosaté certo ponto do livro como sua mãe morreu), buscando ajuda e ninguém se dispondo a te segurar no colo?

Em determinado momento, ficamos nos perguntando se o homem é louco. Se é, os outros dois adultos que eram cúmplices daquela história deviam ser também. E se não for louco, como explicar essa necessidade de estar longe de tudo e de todos? Silvestre é calado, entristecido e tem seus medos e suas manias. Tem afeto pelos filhos, cuida-lhes, mas ao mesmo tempo é capaz de algumas “ruindades”.Como entender esse homem?

A vida transcorre modorrenta, sonolenta naquele lugar onde nada acontece, até que chega nos limites da reserva uma mulher chamada Marta. Marta irá criar uma revolução na vida daqueles homens. Noooosssa! E que revolução! Como assim? Como chega alguém naquele lugar, se ninguém mais além daquele povoado de cinco pessoas havia sobrado no mundo? E uma mulher! Mwanito nunca tinha visto uma mulher. Ele começa a sonhar em ter uma mãe. Ntunzi começa a ter sonhos eróticos. Ambos começam a fazer planos de fuga, porque agora Mwanito também sabe que existe o “lado de lá”.

Bem, a partir daqui não conto mais. Você vai ter que ler. Há muito mais.

Vou te dar uma palhinha da forma como o autor escreve:

“A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para afinar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo silêncio é música em estado de gravidez. Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhando, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios

Lindo de viveeeer!!!!

Mwanito, meu amor eterno a você, meu querido! Na verdade, aos outros também. Que personagens, que história!

Espero que vocês amem tanto quanto eu. E se os próximos livros que vou ler nesse ano tiverem metade da qualidade deste…bem, acho que terei um grande ano de leituras.

Beijos e me liga!

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