Como saber se seu relacionamento é abusivo – parte 3

Relacionamentos “complicados”

Até agora, nos artigos anteriores, eu procurei mencionar relacionamentos positivos, sejam eles ideais ou em crescimento rumo a uma convivência inteiramente saudável. Porém, infelizmente, sabemos que a realidade é que há inúmeros casos de relações prejudiciais entre casais, independentemente de grau de instrução, idade ou o tempo em que vivem juntos.

Nem sempre há violência física em um relacionamento, mas isso não significa que uma das partes (às vezes ambas, até) não esteja saindo muito machucada. Palavras também agridem, atitudes também magoam. Por isso, no artigo de hoje, vou contar a história de D.

D. é uma mulher incrível! Ela é dentista, tem seu próprio consultório aqui no Espírito Santo e nele atende ricos e pobres, quem pode e quem não pode pagar, tem a agenda lotada, trabalha exaustivamente durante a semana e tem três filhos com seu marido, num relacionamento de mais de 15 anos. Uma vez, fui à casa dela e vi uns potinhos de vários tipos de sementes: grão de bico, quinoa… cada coisa saudável! Ela faz questão de que a empregada doméstica saiba tudo sobre como fazer a família dela comer comidas integrais, que fazem um grande bem a saúde.

Na fase atual de seu casamento, é ela quem banca financeiramente o casal, já que o marido está desempregado desde o ano passado. D. é uma mulher sensível e totalmente prestativa! Você pode contar com ela para qualquer coisa a qualquer momento: se alguém, por exemplo, fica doente, ela faz questão de indicar bons médicos, de orientar para que os seus pacientes não deixem de fazer os exames pedidos e de tomar a medicação prescrita. D. acompanha a saúde de seus pacientes de consultório, também dos amigos e da família. Eu acho incrível o quanto ela é amorosa, carinhosa, prestativa… linda, sabe? Só que ela não se vê assim.

Em seu relacionamento, quando D. falha ao lembrar de algum compromisso (levando em consideração as múltiplas coisas que ela faz todos os dias) e ela acaba esquecendo o horário de buscar as crianças, por exemplo, apesar de estar sobrecarregada, seu marido vem com expressões extremamente duras como “Nossa! Com você não dá para contar! Você é assim mesmo.”. E isso a machuca tanto que ela se culpa tremendamente pelo equívoco e se sente a pior pessoa do mundo.

Uma vez uma amiga nossa me contou que conversou com o casal e D. disse que estava querendo que o marido tivesse ajuda para se encontrar, que ele tava meio perdido. De imediato, o marido disse: “Sim, to meio perdido desde que me casei com você!” e ela sai dali com lágrimas escorrendo em sua face.

Quando eu lhe perguntei o quanto ela se sentia amada naquele relacionamento (só para deixar claro, o casamento de D. tem mais de 15 anos), ao me responder, ela começou a chorar dizendo que nunca se sentiu amada por ele e que sempre achou que, caso ela se comportasse bem, iria passar a ganhar afeto, carinho e amor de seu marido. No caso, isso nunca aconteceu, porque todas as vezes em que ela milimetricamente comete alguma falta, ou seja, age um pouquinho fora do eixo (já que a vida dela já está toda nos eixos – profissional referência em sua área e com uma família linda), ele vem culpá-la, usando palavras como se fossem armas.

Atualmente, por exemplo, ela banca a casa, conforme mencionei. Ainda
assim, tem algumas contas que ela não pode pagar, porque ele está desempregado e ela não consegue arcar com tudo sozinha. Porém, houve outra época na vida deles em que ele arcava com praticamente todas as contas da casa – e ele deu conta de pagar todas. Principalmente quando ele morou e trabalhou fora e arcava com as contas da casa da família com facilidade. Só que agora, como ela tem dificuldade de arcar com tudo, ele usa expressões como se ele fosse “O cara” que consegue, dando a entender que ela não consegue sequer arcar com as contas da casa por um período.

É aí que ela se sente mais culpada ainda e se coloca a trabalhar, trabalhar, trabalhar… é um ciclo vicioso terrível: quando ela diz que vai se separar e que não aguenta mais a situação, ele começa a se tornar extremamente bonzinho, prestativo e muda totalmente o jeito de tratá-la. Só que depois, quando ela continua com ele, volta também todo o ciclo, e ele continua depreciando as ações dela, depreciando-a como pessoa. E ela chora, chora e chora e não faz ideia de como poderia proteger sua autoestima vivendo uma relação assim.

Isso é para mim um relacionamento extremamente complicado, em que não há confiança, não existe aquela harmonia gostosa com o qual os dois possam crescer juntos. Muito pelo contrário, um deprecia o outro, e o outro tem que lidar com a depreciação do primeiro. Não é uma atmosfera desejável para ninguém! Por isso, para mim, esse é um exemplo de um relacionamento que não faz bem, que faz mal para o coração – um relacionamento, portanto, que eu acredito que ninguém merece viver.

Esta categoria é a que está mais próxima do relacionamento abusivo, apesar de não existir violência física, existe violência verbal. Nele, podemos distinguir as seguintes características:

  •  Menosprezo;
  • Competição para ver quem é o melhor;
  • Intenção de provocar ciúme;
  • Implicâncias;
  •  Disputas;
  • Desvalorizações;
  • Críticas exacerbadas;
  • Pouco elogio, apoio ou reconhecimento.

Se D. reagisse no mesmo nível que ele, sua casa viraria um cenário de guerra, com as duas partes fazendo coisas para atingir o outro. Além disso, é importante notar que geralmente uma das pessoas (ou ambas) não colocou os dois pés(ou o coração?) no relacionamento ainda – mesmo que estejam juntos há muitos anos.

A consequência é que as pessoas não se sentem acolhidas nesse tipo de relacionamento, o que seria fundamental para uma convivência saudável e crescimento sustentável. Aqui acontece o contrário disso: elas sentem que precisam se proteger o tempo todo da pessoa que escolheram amar.

Como você sabe que está num relacionamento complicado e repleto de violências verbais que minam sua autoestima e sendo de valor próprio?

  • O sentimento de inferioridade e incapacidade de ter uma vida própria e muito feliz!
  •  A culpa – você é acusada de errar o tempo todo e cada erro seu tem um peso gigantesco enquanto os erros do agressor são sempre justificáveis – E ele nunca pede desculpa;
  •  A vergonha de seu corpo ou de suas atitudes por ouvir expressões como “Você é gorda!” ou “Você não presta!” e as interiorizar como se fossem verdade;
  •  O medo que te faz “pisar em ovos” sempre que quer falar qualquer coisa;
  • A solidão provocada pelo distanciamento que o agressor usa com a intenção de te punir por não concordar com ele ou não ter feito algo que ele queria que você fizesse;
  • A angústia constante que não tem saída por mais que você tente se consertar e a frustração constante por não atender as expectativas pouco compreensivas e até irracionais daquele que devia ser seu parceiro, mas cumpre o papel de ser seu agressor;
  •  É bem provável que vivendo isso você tenha abandonado seus amigos e familiares há muito tempo e se sinta refém de uma situação que você acha que não tem o poder de contornar.

E o que fazer? Há, basicamente, três opções para quem descobre que está vivendo um relacionamento verbalmente abusivo:

1. Continuar na relação sofrendo diariamente agressões;
2. Descontinuar a relação veemente e sem olhar para trás;
3. Enfrentar cada violência verbal com expressões autovalorizativas.

Quem olha de fora sua situação e te ama, lhe dirá para sair correndo de uma relação desse tipo. Claro que o mais sensato, na grande maioria dos casos, é terminar a relação. Dificilmente será possível resolver a quantidade de problemas que ele acarreta. É preciso pensar: Vale realmente a pena? É uma relação em que você se sente a vontade para ser você mesma? Tem certeza de que vale a pena uma relação em que você precise sempre defender-se do ser a quem você gostaria de se entregar e confiar plenamente? Se, depois de avaliar com muito carinho, você decidir que sim, já é outra história…

Para quem não está disposta nem a viver sofrendo e nem a sair prontamente da relação, há uma terceira opção: Enfrentar a Violência Verbal defendendo-se diariamente de cada investida, sem exceção! No livro “Como Enfrentar a Violência Verbal”, Patrícia Evans descreve a importância de estabelecer limites do que é ou não aceitável em seu relacionamento e comunicar isso ao agressor. Cada ação e fala do parceiro que machuca você por dentro é um abuso da sua confiança nele e uma violação de seu direito de ser um ser humano livre para ser quem é fazer suas próprias escolhas. Para saber quais são os seus limites, basta completar a frase: “Não aceitarei…”, tal como:

Exemplos:“Não aceitarei mais que você faça brincadeiras menosprezando o meu corpo;

Não aceitarei que você seja ríspido comigo quando eu estou apenas falando minha opinião porque eu tenho direito a ter uma opinião diferente da sua;

Não aceitarei você brincando com seu cunhado sobre quem controla mais sua mulher.”

Cada vez que você for menosprezada, por exemplo, é interessante usar expressões fortes como: “Não é assim que se fala comigo!”, “Não te dou o direito de menosprezar meu corpo outra vez!”, “Chega de críticas!”, “Não estou achando nenhum pouco engraçado.”. Assim, você estará educando seu parceiro sobre como você quer ser tratada ao falar com ele com o mesmo fervor com que ele te tratou até hoje, porém sem a agressividade que ele não se cansou de usar.

Estas são apenas sugestões, porém dentro de você existe suas próprias respostas de no que exatamente você não irá aceitar ficar calada, mesmo que ele tente justificar ou te culpar pelo mal comportamento dele. Pode ser que ele nunca lhe peça desculpas, mas o fato de não aceitar fará com que seu autorespeito aumente consideravelmente!

Claro que não é nenhum pouco fácil para quem vive essa situação ter uma autoestima e autoconfiança Super Power, porém é um caminho. Eu realmente acredito que é fundamental apelar para ajuda externa para ver a situação mais claramente. Se é o seu caso, me mande um email contando sua história para giuliann.scarpati@hotmail.com que farei questão de te apoiar com outros materiais específicos para clarear sua mente a cerca de como se defender em meio a uma relação tão pouco saudável.

No próximo artigo, veremos uma situação extrema que, muitas vezes, se inicia com o tipo de relacionamento de que estamos falando agora mesmo. Se esse é seu caso, eu te afirmo: você certamente merece mais do que isso!

De coração para coração,
Giulianna Scarpati

Giulianna Scarpati – Socióloga por formação, Terapeuta e Coach por vocação e escritora por teimosia. Contatos: giuliann.scarpati@hotmail.com

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